Na historiografia da música instrumental brasileira, poucos capítulos são tão fascinantes quanto a gênese da Guitarrada no Pará, e seu principal mestre não poderia deixar de ter seu destaque nessa saga de descobertas ainda surpreendentes.

Se a trilogia Lambadas das Quebradas consagrou Mestre Vieira como o inventor de um gênero, existe um “lado B” nessa história, oculto nas brumas da discografia oficial e nos sebos mais profundos da região Norte. Trata-se do álbum Lambadas e Quebradas, lançado em 1982, sob a alcunha de Lima, o Guitarreiro do Amazonas.

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A utilização do nome “Lima” (o nome do meio de Joaquim de Lima Vieira) não foi um mero capricho artístico. No início da década de 80, Vieira era um artista consolidado, com contratos que provavelmente o impediam de lançar material por selos concorrentes ou projetos paralelos. A solução encontrada foi o refúgio no anonimato parcial.

O álbum é um tributo direto e assumido a Poly (Polibio Alves), o virtuoso guitarrista que, nos anos 60 e 70, popularizou o uso do slide e da guitarra havaiana no Brasil. Mestre Vieira nunca escondeu que o guitarrista Poly foi uma de suas principais influências.

  • Ângelo Apolônio, de nome artístico Poly (São Paulo, 8 de agosto de 1920 — São Paulo, 10 de abril de 1985) foi um multiinstrumentista (violão, cavaquinho, bandolim, banjo, guitarra elétrica, contrabaixo, viola, guitarra havaiana) e compositor brasileiro, com dezenas de discos gravados, em diversos gêneros.

Neste disco de 1982, Vieira emula a técnica do ídolo, em um diálogo entre gerações e geografias. O sotaque amazônico de Vieira reprocessando a linguagem melódica que Poly trouxe do pop internacional e da música romântica.

O repertório foca nos dois principais discos da carreira de Poly – Moendo Café, especialmente, e Saia Vermelha -, traduzindo a atmosfera de “baile de gafieira” para o calor das festas de aparelhagem.

Vieira executa as faixas com a precisão de quem estudou cada nota, mas com a “pegada” acelerada e dançante que se tornaria a marca registrada da música paraense.

Músicas do LP Lambadas e quebradas:

Lado A

Wheels
Cavaleiros do Céu
México
Suco-Suco
Bat Masterson

Lado B

Na Fronteira do México
Moendo Café
Saia Vermelha
Caramba
La Bamba
Reginella Campagnola

O resgate de “Lambadas e quebradas”, com Lima, o “Guitarreiro do Amazonas” é fundamental para compreender a transição dos anos 70 para os 80 na música do Norte.

O disco prova que a Guitarrada não nasceu por geração espontânea, mas foi fruto de uma antropofagia musical onde Mestre Vieira deglutiu Jovem Guarda, choro, carimbó e também a guitarra precisa de Poly.

Hoje, o álbum passa a ocupar o lugar que sempre mereceu, um registro raro, experimental e representativo do período criativo de um dos maiores nomes da música amazônica e brasileira.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)

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