O movimento batizado de Jovem Guarda foi a resposta brasileira à invasão do rock inglês, especialmente aos Beatles. Essa reação chegou a ser explicitada na música Beatlemania, de Erasmo Carlos, em que ele cantava, de forma provocativa: “vou acabar com a beatlemania… se eu não puder na mão, vou até de pau… podem vir todos os quatro…”.
Perdida a inglória batalha, Renato e Seus Blue Caps, com Menina Linda, versão de I Should Have Known Better, assinaram definitivamente a rendição aos cabeludos de Liverpool, depois levada ao extremo por centenas de covers e versões, que incluíram até mesmo a gravação de Lady Madonna pelos Mutantes.
A resistência inicial, no entanto, teve um efeito decisivo, serviu para afirmar uma identidade própria para o rock brasileiro dos anos sessenta. Foi por meio da Jovem Guarda que se construiu uma linguagem particular e nacional para a música jovem, capaz de dialogar com o pop internacional sem abrir mão de uma sonoridade e de um imaginário próprios.
Com nome ironicamente atribuído a uma expressão de Vladimir Ilitch Lênin, segundo consta, por sugestão do publicitário Carlito Maia, a Jovem Guarda envolveu amplamente a juventude brasileira, com programas de televisão, shows por todo o país e milhares de discos gravados, entre LPs e compactos.
Explodindo com clássicos como Quero Que Vá Tudo Para o Inferno, Festa de Arromba, O Calhambeque, Splish Splash e Vem Quente Que Estou Fervendo, entre outros, a nova onda rapidamente transformou-se em mania nacional. Surgiram grifes de roupas, como as calças Zé Beto, além de toda sorte de bugigangas associadas aos ídolos do movimento.
Afastada dos conflitos políticos que se intensificaram após o golpe militar de 1964, mas nem por isso alienada culturalmente, a Jovem Guarda acabou por preparar o terreno para a Tropicália, que a partir de 1967 fundiria rock, MPB e discurso político.
O programa mais famoso, Jovem Guarda — apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, e exibido pela TV Record de São Paulo — atraiu imediatamente a atenção de milhares de jovens, que acompanhavam aos domingos à tarde a sucessão de novos ídolos.
Em 1966, sob o comando de Roberto Carlos, o I Festival de Conjuntos da Jovem Guarda reuniu cerca de cinco mil grupos e consagrou em primeiro lugar o grupo paulista Loupha, com a versão de I Can’t Let Go, dos ingleses The Hollies.
Nas etapas regionais, destacaram-se ainda os gaúchos The Cleans, vencedores em Porto Alegre; os mineiros The Jungle Cats, em Belo Horizonte; e os cariocas The Bubbles, que nos anos setenta se transformariam em A Bolha.
Além dos nomes mais conhecidos, integraram a Jovem Guarda grupos que entraram para a história do rock nacional, como The Bells, The Jordans, The Jet Black’s, Os Brasas, The Fevers, The Clevers (posteriormente Os Incríveis), The Sunshines, Os Canibais, Os Jovens, The Youngsters e The Brazilian Bitles. Esses conjuntos gravaram repertório próprio e inúmeras versões, em sua maioria assinadas por Fred Jorge, Rossini Pinto e Gileno, o Leno.
Também se destacaram intérpretes como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Sérgio Reis, Wanderley Cardoso, Bobby Di Carlo e Ed Wilson, além de cantoras como Meire Pavão, Valdirene, Cleide Alves, Rosemary, Silvinha e Vanusa. Tiveram ainda grande projeção as duplas e grupos vocais Os Vips, Deny e Dino, The Golden Boys, Os Caçulas, Trio Esperança, Leno & Lilian e Os Iguais, entre outros.
No campo da criação musical, sobressaíram compositores como Getúlio Côrtes, autor de Negro Gato, e instrumentistas fundamentais para a sonoridade do movimento, como os guitarristas Renato Barros e Gato e o tecladista Lafayette.
Entre as dezenas de canções que marcaram época, destacam-se clássicos como O Bom (Eduardo Araújo), Prova de Fogo (Wanderléa), Pensando Nela (The Golden Boys), Pobre Menina (Leno & Lilian) e Coruja, com a dupla Deny e Dino.
Canções que, pela qualidade e pelo impacto cultural, permanecem vivas até hoje, seja em reedições, regravações com seus intérpretes originais ou em covers de artistas contemporâneos que rendem tributo aos desbravadores do gênero.
Mais do que nostalgia, a Jovem Guarda consolidou-se ao longo do tempo como um movimento musical de importância central, responsável por uma contribuição decisiva à formação afetiva, cultural e musical da juventude brasileira e, por extensão, da própria música popular nacional.






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