Com o mundo olhando para a Amazônia, nada mais apropriado do que resgatar e valorizar símbolos da sua mais profunda expressão, como Mestre Cupijó, responsável pela modernização do “siriá” – intensa manifestação do sincretismo das músicas indígena e negra.

Nascido em Cametá (26 de julho de 1936 – Belém, 25 de setembro de 2012), nas margens do rio Tocantins, no estado do Pará, ao Norte do Brasil, e batizado Joaquim Maria Dias de Castro, Mestre Cupijó é sinônimo do gênero – espécie de primo do carimbó.

Na origem do “siriá” está a dança de índios da região amazônica e o batuque africano dos negros, especialmente o “samba de cacete”, mas também o “banguê”, que preservaram a tradição nos quilombos (palenques, para os latinos).

  • Segundo a Wikipédia, “o siriá é uma dança brasileira originária do município de Cametá, localizado no estado do Pará”.

Mestre Cupijó cresceu em meio à música, ouvindo e depois participando da banda Euterpe Cametaense, da qual seu pai Vicente Castro, o Mestre Sicudera, era diretor – a influência europeia complementar na mistura sonora de Cupijó.

Antes dirigida por seu avô, a Euterpe Cametaense foi fundada em 1874, tornando-se a banda municipal mais antiga do Pará e, possivelmente, do Brasil, sendo a única a se apresentar nas festividades que marcaram o “fim” da escravidão no Pará em 1888.

Além da fusão original das influências indígena e negra, o multi-instrumentista Mestre Cupijó radicalizou na utilização dos sopros oriundos da banda, atualizando os ritmos folclóricos, agregando, ainda, a influência caribenha, como o mambo e o merengue.

* Um show no festival Se Rasgum, em Belém, em 2017, com o grupo Baile do Mestre Cupijó, formado por jovens músicos locais, comprovou a força e a atualidade da sua música.

  • Após sua morte, a cineasta e sobrinha de Cupijó, Jorane Castro, produziu o documentário biográfico com apoio da Petrobras, “Siriá por Mestre Cupijó”, contando a história e a obra do mestre.

A obra de Cupijó em vinil e CD

A obra do Mestre Cupijó conta com seis LPs lançados entre os anos 70 e 80, uma coletânea lançada pela série internacional 2Analog África (mais um CD equivalente), outro CD independente e ainda uma boxset com os seis álbuns e um extra.

  • Veja a discografia completa:

1 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Dance o Siriá (Escorpião/Rozenblit, LP, s/d)
2 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Dance o Siriá, Vol 2 (Escorpião/Rozenblit, LP, sd)
3 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Siriá, Sirá, Siriá (Continental, LP, 1975)
4 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Siriá (Continental, LP, 1976)
5 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Banguê da namoradeira (Musicolor, LP, 1978)
6 – Mestre Cupijó – Menina chorona (Chantecler, LP, 1982)
7 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Coletânea (Analog Africa, LP, 2014)
8 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – Coletânea (Analog Africa, CD, 2014)
9 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – O melhor de Mestre Cupijó (Cultura Laser, CD, s/d)
10 – Mestre Cupijó e Seu Ritmo – No ritmo do Siriá! (box com 7 CDs, Independente, s/d)

Mestre Cupijó para as novas gerações

Na abertura do carnaval de 2024, o grupo Baile do Mestre Cupijó lançou o primeiro álbum de estúdio com a obra do artista de Cametá, no interior do estado.

Na sequência, com apoio da Caixa Cultural, o grupo percorreu as principais capitais e cidades do Brasil, mostrando a obra do mestre Cupijó.

O disco traz 15 faixas, com a banda formada por 11 instrumentistas e participações especiais de Dona Onete, Felipe Cordeiro e DJ Waldo Squash.

O projeto contou com direção musical de JP Cavalcante, também autor dos arranjos com o saxofonista Daniel Serrão, que assina a produção musical.

  • “Cupijó reinventou o Siriá, ritmo que antes somente era escutado nos finais de festejos de grupos de Samba de Cacete, como ele viveu na região do Baixo Tocantins, extraiu isso da melhor forma, e traduziu para uma banda o que hoje conhecemos como Siriá”, explicou JP Cavalcante ao jornal O Liberal.

O grupo manteve “aspectos da musicalidade do Mestre Cupijó, que lhe garantiam o grande diferencial”, de acordo com JP, e introduziu o som das aparelhagens em “Morena do Rio Mutuacá”.

  • Abaixo, um show completo do Baile do Mestre Cupijó, no Festival Fartura, em Belém:
  • Ouça a playlist Navegando pela Amazônia, selecionada por Fernando Rosa, com 150 músicas.

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Foto: Senhor F Social Club.

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